Joel Marinho

 

O incansável guerreiro



Textos

UM REFÉM NOS LABIRINTOS DA VIDA
Todos os dias as cinco e trinta da manhã, Carlos Henrique levantava religiosamente de sua cama para regar um pequeno jardim em frente a sua casa onde morava sozinho desde que tinha dezoito anos. Ele agora estava com trinta anos e sua rotina era sempre a mesma antes de ir para o seu trabalho em uma fábrica de violão relativamente próximo a sua residência, cerca de vinte minutos de caminhada.
Na abreviação de seu nome ainda criança seus parentes e conhecidos o apelidarem de Caíque e assim sempre fora chamado sem nenhuma rejeição por parte dele.
Caíque sempre fora um menino reservado. Até conversava, porém nunca foi de demonstrar muita emoção e nem de fazer grandes amizades. Quando adolescente teve poucas paixões, a mais longa aconteceu com Angélica, uma coleguinha de escola quando ele tinha quinze anos e ela já com dezesseis e já na série subsequente a dele.
Formosa e bonita, certo dia Caíque encontrou Angélica aos beijos com Augusto César, um menino de dezessete anos que já cursava o terceiro ano. Foi de fato a maior decepção amorosa de Caíque. Por diversas vezes pensou em cometer uma tragédia, mas esse sentimento foi se dissipando e ele trancou-se em um mundo especial de solidão.
Caíque não deu prosseguimento aos estudos, porém conseguiu terminar o ensino médio, escolaridade suficiente para conseguir aquele emprego de lixador de peças para a fabricação de violão.
Pela proximidade com os violões acabou comprando um e aos poucos aprendeu a dedilhar algumas músicas, o suficiente para acalmar a alma nas noites escuras de solidão naquela cidade grande.
Apaixonou-se pela poesia e lia desde os autores clássicos a alguns escritores totalmente desconhecidos, entre eles uma poetisa chamada Andria Saches. Aprendera a declamar aquele que para ele era um dos mais belos sonetos já lidos, talvez por conter palavras que pareciam falar diretamente a si:
ONDE ESTÁ AQUELE MENINO?
Sorridente, jovial e sonhador
Ainda menino deixou de existir
Viu muito cedo quase tudo ruir
E deixou de acreditar no amor.
 
Onde está agora aquele menino?
Que outrora brincava contente
Em seu faz de conta sorridente
Piscava às estrelas em desatino.
 
A vida é um quebra cabeça, rapaz!
Vence o guerreiro que for capaz
De descobrir a saída do labirinto.
 
Acorda para a vida, ainda dá tempo
Saia dessa letargia, desse sofrimento
Deguste vinho ao invés de absinto.
                            ANDRIA SANCHES
Certa vez com seu violão companheiro musicou esse soneto e fez dele a sua música preferida, uma espécie de “oração”.
 
 
Talvez você esteja se perguntando: mas de onde veio Caíque? O que de terrível aconteceu com a vida dele para se sentir tão solitário além de uma desilusão amorosa na adolescência?
Vamos então fazer um breve apanhado da vida de Caíque.
Seus pais se casaram em uma cerimônia simples, porém de muita alegria, as famílias de ambos reuniram todas as forças e fizeram um dos casamentos mais bonitos da pacata cidade de apenas seis mil habitantes chamada Espinhal das Rosas.
Um ano e meio depois veio Caíque para alegrar aquela família pobre, porém feliz. Seu pai trabalhava grande parte do tempo como lavrador em um terreno próximo da cidade e vez ou outra fazia alguns trabalhos de ferreiro armador em alguma construção na pequena cidade.
Até os cinco anos Caíque tinha a família mais feliz do mundo quando em um determinado dia seu pai foi encontrado morto no caminho de sua roça. O crime nunca fora elucidado e Caíque as vésperas de fazer seis anos de idade se tornou órfão de pai.
Sua mãe dois anos depois do falecimento misterioso do marido começou um novo relacionamento e logo veio a ficar grávida, dando a Caíque um irmãozinho chamado Jonathan.
Nos primeiros dois anos com o seu padrasto a relação foi relativamente boa, entretanto, quando ele completou dez anos tudo começa a mudar. Seu padrasto se torna um homem violento e Caíque passa a ver constantemente sua mãe sendo violentada de todas as formas por ele.
Caíque fugiu de casa algumas vezes e teve que voltar, porém quando completou quinze anos foi embora de vez cortando as relações com sua mãe, irmão e padrasto. Foi através de uma casa de apoio que ele conseguiu terminar o ensino médio. Fazendo alguns trabalhos aleatórios foi conseguindo sobreviver naquele meio tão cruel. A saudade de sua mãe era grande, a falta sentida dela era um buraco enorme na vida daquele menino obrigado pelas consequências a se tornar responsável por si mesmo ainda muito novo.
 
 
Era tarde de quarta-feira e da mesma forma metódica Caíque chegou, entrou em casa, tirou o sapato e colocou no mesmo lugar de sempre. Tirou a roupa e colocou dobrada em cima do criado mudo, da mesma forma de todos os dias. Tomou banho, fez uma merenda, comeu, pegou seu violão e tocou sua música quase oração, aquele soneto o qual havia musicado. Cansado deitou em sua cama.
Um barulho o perturbou e ele levantou sorrateiramente para saber o que estava acontecendo vindo lá de fora.
Não, aquilo não estava acontecendo!
Como se fosse um fantasma aquela cena o fez cair de joelhos no chão, seu padrasto em sua casa com o corpo todo ensanguentado e com duas machadinhas nas mãos.
- Mas o que aconteceu, gritou Caíque assustado?
- Sua vez agora, respondeu Laurindo, seu padrasto! Vim para terminar o trabalho que deveria ter terminado quando ainda tinha dez anos.
Um carro estacionado na frente da casa de Caíque para onde seu padrasto se locomoveu soltando as machadinhas no chão. Abriu o porta mala do carro e levantou pelos cabelos duas cabeças ensanguentadas, reconhecidas imediatamente por Caíque como a mãe e o irmão mais novo.
Aquela cena deveras o transtornou.
- Mas o que você fez seu maldito? Indagou com voz trêmula, Caíque.
Uma mistura de sentimentos, raiva, ódio, medo, desespero tomou conta de Caíque e sua reação foi correr até a cozinha, pegar uma enorme faca de uma das gavetas do seu armário e partir pra cima daquele homem responsável por ter ceifado a vida de sua mãe e de seu meio irmão. Com uma força descomunal desferiu vinte e cinco golpes contra Laurindo que sangrou até a última gota de sangue.
Desesperado, Caíque saiu correndo, enquanto seus vizinhos tentavam entender o que estava acontecendo e ninguém entendia nada.
A polícia imediatamente foi acionada e Caíque imprimiu fuga de uma forma desesperada. Correu, pulou vários muros e por fim caiu no “resto” de rio que cortava a cidade e descia em direção a uma área de mata.
Dentro daquela mata já escura Caíque via ao longe as luzes da cidade já se acendendo e aquela cena do padrasto com as cabeças da sua mãe e seu irmão nas não lhe saía da mente. Aquele homem responsável por tanta coisa ruim em sua vida também foi responsável por lhe transformar em um assassino.
Ao mesmo tempo que pesava a consciência pela morte de um ser humano ficava pensando na família que perdera por aquele homem, a vida de sua mãe e seu meio irmão. Sabia que não tinha feito a coisa certa, porém não havia outra escolha e reagiu a uma ação inusitada.
Mas por que Laurindo tinha ido até a casa dele mostrar aquelas atrocidades que cometeu? Por que não lhe deixou em paz?
Em meio a mata com frio e cansado Caíque caiu no choro, depois de vários anos ele conseguiu chorar e após um tempo aconchegou-se ao lado de um tronco de árvore e acabou adormecendo.
Uma voz distante foi aos poucos se tornando mais próximo, era uma mulher lhe chamando de assassino. Era a voz de sua mãe. Ele colocava as mãos aos ouvidos, porém de nada adiantava, quanto mais fechava os ouvidos, mais aquela voz aumentava a intensidade como se os tímpanos fossem explodir.
Ouviu os ruídos ensurdecedores de sirene e tentou correr, mas não deu mais tempo, um policial apareceu com uma sub metralhadora nas mãos apontando a ele e mandando que ficasse ali mesmo deitado de rosto no chão enquanto outro policial se aproximava dele e o imobilizava com as algemas nos braços.
O policial o levantou com força, seu corpo doía todo, talvez pela posição que tivera ficado a noite toda.
Na delegacia começava uma série de interrogatórios aos quais Caíque se limitava a ficar calado, pois mesmo tendo estudado pouco sabia que tinha o direito a um advogado para ser interrogado.
Na verdade pouca coisa ele realmente sabia, a não ser a certeza da morte de sua mãe e do irmão caçula e de ter matado o seu padrasto Laurindo.
 
 
Outra vez aquele barulho ensurdecedor de sirene e aos poucos aquela luz branca foi aparecendo. Caíque tentou se virar para o outro lado e se aconchegar naquela cama dura e fria da delegacia, mas sentiu que não conseguia mexer com o corpo.
Ouvia ruídos de voz, mas seus olhos não conseguiam abrir direito. Temeu ter sofrido violência por parte dos presos, por isso seu corpo estava imóvel e seus olhos não conseguiam abrir.
Aos poucos aqueles barulhos foram ficando mais nítidos e aquelas pessoas de branco foram se tornando mais reais, então percebeu que estava contido em uma cama.
Com os olhos abertos quase totalmente não acreditava na imagem que vira. Era a imagem mais bela que a muitos anos não vira mais.
Sua mãe o sorria!
Os olhos de Caíque arregalaram, queria entender aquilo tudo, mas seu cérebro ainda não acompanhava o raciocínio altamente confuso.
- Como assim, minha mãe, pensava Caíque!?
A enfermeira chegou com mais uma injeção e aplico em sua veia e novamente “apagou”.
Quando acordou estava com uma sensação estranha. O que de fato aconteceu? Abriu os olhos e novamente sua mãe lhe sorria. Olhou para o teto e pensou estar vendo miragem devido àquele ambiente prisional.
O soneto veio-lhe a cabeça e ele confuso começou a recitá-lo cantando como se estivesse com seu velho companheiro, o violão.
Tirou o olhar do teto e virou os olhos para o lado. Lá estava a sua mãe sorrindo novamente.
- Mãe?!
- Oi meu filho, respondeu dona Martha.
- Onde estou? A senhora não está morta?
- Não meu filho! Se acalma, você não pode ter muitas emoções.
Caíque estava paralisado. Tentou mexer os braços e não conseguia, as pernas estavam amarradas a alguma coisa.
Aos poucos foi recobrando a consciência e devagar tentava entender todo aquele contexto.
Sua mãe aos poucos foi explicando que a cerca de um mês ela foi notificada pela polícia que seu filho estava em coma no hospital municipal da cidade por quinze dias. Tiveram bastante dificuldade de localizar sua mãe devido a poucas informações com relação a família dele, visto que pouco ou quase nunca ele falava de onde tinha vindo e se tinha pais ou irmãos.
Sua mãe então falou sobre a separação de seu padrasto e a morte do mesmo de forma violenta em uma briga de bar pouco tempo depois de ter conseguido o divórcio.
- Mas o que de fato aconteceu comigo, mãe?
- Bem meu filho, quando eu cheguei aqui as informações que tive foi de que você surtou, quando chegou em casa e mão encontrou seu violão, alguém havia entrado em sua casa e roubara algumas coisas suas, entre elas o violão.
Você quebrou tudo, jogou gasolina na casa e colocou fogo. Quando os corpos de bombeiros chegaram você estava no meio da fumaça já desmaiado no chão. Depois disso passou a ter surto todos os dias, por isso foi obrigado a te manter sempre sedado.
Caíque respirou fundo e uma lágrima desceu dos seus olhos. Ainda com dificuldade na fala e meio confuso pediu para a enfermeira que o soltasse os braços. A enfermeira com um pouco de receio ainda relutou, porém dona Martha assentiu com um positivo de cabeça e então foi atendida.
Ele pediu um abraço, aquele carinho que não sentia a anos. Sentiu um alívio enorme por saber que não havia matado ninguém e todo aquele pesadelo estava de certa forma passando.
Ao longo das próximas duas semanas Caíque havia recordado a consciência para muitas coisas, conseguiu um novo violão e as psicoses foram aos poucos se tornando menos presente, porém o psiquiatra advertiu que deveria fazer um tratamento contínuo acompanhado de terapia para o resto da vida.
Caíque se preocupou se poderia voltar ao trabalho e o psiquiatra disse que sim, porém tinha que ser observado algumas situações de muito estresse e pressão.
Não foi fácil a adaptação da nova vida, sua mãe saiu da pequena cidade onde morava e foi morar com Caíque, juntamente com seu irmão mais novo.
A vida não se tornou essa maravilha completa como nos contos de fadas de finais felizes para sempre, mas os três conseguiram se aproximar e se amar. Caíque foi acompanhando o crescimento de seu irmão e tendo o afago materno de sua mãe há muito tempo perdido.
Toda vez que algo o estressava, Caíque descobriu uma maneira de aliviar as tensões, pegava o violão, dedilhava aquelas notas e cantava o velho soneto que se tornou seu “hino”:
ONDE ESTÁ AQUELE MENINO?
Sorridente, jovial e sonhador
Ainda menino deixou de existir
Viu muito cedo quase tudo ruir
E deixou de acreditar no amor.
 
Onde está agora aquele menino?
Que outrora brincava contente
Em seu faz de conta sorridente
Piscava às estrelas em desatino.
 
A vida é um quebra cabeça, rapaz!
Vence o guerreiro que for capaz
De descobrir a saída do labirinto.
 
Acorda para a vida, ainda dá tempo
Saia dessa letargia, desse sofrimento
Deguste vinho ao invés de absinto.
                            ANDRIA SANCHES
No final ele respondia:
- Aquele menino está no lugar mais seguro, nos braços de sua família!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Joel Marinho
Enviado por Joel Marinho em 04/10/2019
Alterado em 04/10/2019


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