Joel Marinho

 

O incansável guerreiro



Textos

VIVA O 13 DE MAIO? E O 14 DA “RESSACA”?
POR JOEL MARINHO

Viva a nossa liberdade!
Viva a princesa Isabel!
Aquela mulher “bondosa”
Que assinou o tal papel
Conhecido por Lei Áurea
“Iluminada” do céu?
 
Foi cachaça e capoeira
Fizeram grande fuzaca
Naquele TREZE de maio
Barulhento igual baitaca
Mal sabiam que viria
O dia catorze da ressaca.
 
No outro dia cedinho
Veio a realidade
Quem sou eu, para onde vou?
Sem lar e sem felicidade
A senzala era ruim
Mas até bateu saudade.
 
O pior que essa ressaca
Até hoje não passou
Mesmo com a Constituição
Que o Sarney assinou
Igualando todo mundo
A igualdade não chegou.
 
Mas vamos falar um pouco
Sobre essa escravidão
Para o leitor chegar
A uma melhor compreensão
Desde o século dezesseis
Até nossa geração.
 
Desde a década de trinta
Lá no século dezesseis
Vieram forçados da África
Ao Brasil pela primeira vez
Mas foi no século dezessete
Que teve mais altivez.
 
Precisavam de mão de obra
Pra cuidar do canavial
E as grandes caravelas
Era o transporte ideal
Vieram milhões de humanos
Em um sofrimento fatal.
 
Tratados como animais
Eles não tinham direitos
Seus “donos” os maltratavam
Não tinham nenhum respeito
Batiam por qualquer coisa
Que os tinham como suspeito.
 
Lógico que a escravidão
É algo complexo demais
Mas no geral o escravo
Não tinha nenhuma paz
Seus donos os maltratavam
De uma forma voraz.
 
Quase quatrocentos anos
Essa tal de escravidão
Trouxe muitos africanos
Pela casa do milhão
Para o trabalho forçado
Com enxada, foice e facão.
 
Mas no século dezenove
Tudo começou mudar
Em mil oitocentos e cinquenta
Tudo mudou de lugar
A Inglaterra dizia
Vamos a isso acabar.
 
A Inglaterra boazinha
Porém digo, só que não,
Os ingleses só queriam
Vender sua produção
Mas qual o poder de compra
Em um país de escravidão?
 
Mil oitocentos e cinquenta
Veio então a Lei primeira
Que proibia trazer
Escravos dessa maneira
Lei Eusébio de Queiroz
Acabou com essa feira.
 
E foi assim que acabou
O tal do tráfico negreiro
Não podiam mais trazer
Escravos do estrangeiro
Mas no Brasil esse tráfico
Era muito corriqueiro.
 
De uma capitania a outra
Tudo era permitido
Podiam vender e comprar
Até escravo fugido
Pra lembrar que na escravidão
Nem tudo tinha sentido.
 
Mil oitocentos e cinquenta
Também veio a Lei de Terras
Toda terra devoluta
Tornou-se do governo materna
Só quem podia comprar
Tinha uma vida moderna.
 
Essa lei foi pra dificultar
Escravos e imigrantes
Pois não queriam que eles
Se tornassem num instante
Os grandes donos de terra
Assim seria humilhante.
 
Isso tornou ao ex-escravo
Um bem quase impossível
Pois não podia comprar
Aquele bem mais incrível
Porque com o branco rico
Não estava ao mesmo nível.
 
E o tempo foi passando
O Brasil entra em guerra
A Guerra do Paraguai
Movido pela Inglaterra
Com Uruguai e Argentina
Nela o império se enterra.
 
Precisavam de soldados
Recorreram ao escravo
Tornaram-se os guerreiros
Do exército homens bravos
Porque não tinha mais branco
Pra vencer aquele entravo.
 
E quando a guerra acabou
Voltaram para o Brasil
Escravos vitoriosos
“Onde foi que já se viu”
Aqueles homens de cor
Tornaram-se tão bravios.
 
O historiador Joaquim Nabuco
Foi defensor dessa luta
Pelo fim da escravidão
De uma forma absoluta
Cresceu muito após a guerra
O discurso dessa disputa.
 
No ano setenta e um
Também no século dezenove
Lei Rio Branco ou Ventre Livre
Mais uma causa resolve
Nascido a partir de ali
Era livre, porém imóvel.
 
Porque o Senhor da mãe
Tinha como obrigação
Criar até oito anos
Com bondade de “cristão”
Mas depois pedia ao Estado
Uma gorda indenização.
 
Se o Estado não pagasse
O menino pagaria
Até aos vinte e um anos
Ao senhor trabalharia
Era para indenizar
Ao que hipoteticamente devia.
 
A luta continuou
Pressões internacionais
A Inglaterra “bondosa”
Dizia isso não dá mais
Como pode ainda existir
A escravidão é o satanás.
 
E logo a Inglaterra
“Toda humana preocupada”
Com o sofrimento do escravo
Eu não vou te falar nada
“Sabe de nada, inocente!”
Isso era só presepada.
 
Pois no fundo a Inglaterra
Queria mesmo era expandir
O seu negócio no Brasil
Mas era difícil aqui
Porque escravo não compra
Mas assalariado sim.
 
Vamos deixar a Inglaterra
Com a sua ambição
Pra falar de oitenta e cinco
A lei penúltima da escravidão
A Lei dos Sexagenários
Libertando o sessentão.
 
Dizia a dita lei
Quem fazia sessenta anos
Estava liberto enfim
Pra ser feliz sem engano,
Porém dentro dessa lei
Encontramos mais um plano.
 
Essa Lei foi assinada
Em mil novecentos e sessenta e cinco
Parecia ser tão boa
Liberdade com afinco
Mas lendo ela de perto
Dá náusea, ao menos eu sinto.
 
Na Lei dos Sexagenários
Tinha uma cláusula do cão
Havia a necessidade
De pagar indenização
E quem pagava essa conta
Era o coitado ancião.
 
Trabalhava mais cinco anos
Para ter a liberdade
Isso nos causa revolta
Vejam que perversidade
Pois quase nenhum escravo
Chegava a essa idade.
 
A luta continuava
Nas ruas e no Congresso
Para o fim da escravidão
As discussões de progresso
Nesse contexto se deu
Todo aquele processo.
 
Mil oitocentos e oitenta e oito
A dona princesa Isabel
Veio com a novidade
Trazendo nas mãos um papel
Com a Lei Áurea assinada
Quão bondosa a “doce Bel”.
 
Viva a princesa Isabel!
Viva a nossa liberdade!
Quase quatrocentos anos
Para o fim dessa maldade
Agora somos libertos
Somos gente de verdade.
 
Liberdade, como assim?
O que a Lei Áurea fala?
Que os negros foram libertos
Estão livres da senzala
Sem estudo e sem emprego
Estão sem roupa e sem mala.
 
É como diz o ditado
Liberdade pra inglês ver
Pois sem oportunidade
Como vão sobreviver
Espalharam-se nas cidades
Para de fome não morrer.
 
E durante mais cem anos
Muita coisa aconteceu
Ex-escravos perseguidos
E a favela só cresceu
Com muita luta e choro
Esse povo sobreviveu.
 
Nem vou aqui colocar
As leis de perseguição
Contra toda a liberdade
De cultura e religião
Se fizer uma pesquisa básica
Verá que a História tem razão.
 
No final do século vinte
A Constituição Cidadã
No ano de oitenta e oito
Trouxe um novo amanhã
Igualou perante a lei
Todo irmão e toda irmã.
 
Mas não foi suficiente
Para trazer igualdade
Quem mais morre violento?
Quem tem mais por trás das grades?
E quem tem nesse país
Menos oportunidades?
 
Quando veio a Lei de Cotas
Para o afro brasileiro
Foi aquele deus nos acuda
Foi feio o panavoeiro
Vou refrescar sua memória
Quem teve cota primeiro.
 
Quem conhece a “Lei do Boi”?
Do período militar
Dando cota aos fazendeiros
Para seus filhos ingressar
Em institutos e universidades
Os “coitados” iam estudar.
 
Mas aos afros brasileiros
Meu Deus, mas que indecência!
Isso é racismo ao contrário
É o que muita gente pensa
Principalmente aqueles
Que a História dispensa.
 
Eu juro que não queria
Ter essa separação
Como cotas, por exemplo,
Queria o Brasil nação
Porém há necessidade
Para essa reparação.
 
A tal meritocracia
Eu juro que gosto dela
Essa disputa com outro
Quando é sadia é bela
Mas quando há desigualdade
Vira desgraça é balela.
 
Sou pobre e entrei por cota
Disputando com meus iguais
Chueguei à universidade
E me orgulho demais
Pois pela meritocracia
Entrou quem se esforçou mais.
 
Vou ficando por aqui
Com meu humilde cordel
Viva Dandara e Anastácia
E a todas da luta fiel
Por que eu daria viva
Para a princesa Isabel?
 
Não vou mais me alongar
Pra não causar confusão
Se bem que quase ninguém
Vai ler um cordel grandão
Mas se leu até aqui
E quer civilizado discutir
Estou pronto, amigão.
 
FIM OU NÃO...
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Joel Marinho
Enviado por Joel Marinho em 14/05/2020
Alterado em 14/05/2020


Comentários


 
Site do Escritor criado por Recanto das Letras