Joel Marinho

 

O incansável guerreiro



Textos

A LÂMINA COM SANGUE
POR JOEL MARINHO

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De forma ofegante apareceu Joana com aquela faca na mão.  O sangue ainda vivo e quente pingava da ponta da lâmina cortante.

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Era tarde da noite quando Joana, garota de programa de apenas vinte e um anos esperava no lugar habitual os seus clientes novos ou antigos, aqueles homens que procuram sexo casual geralmente fora do casamento.
Era uma moça de olhos pretos, grandes e brilhantes daqueles que ao fixar em qualquer olhar desavisado é capaz de tornar seus “opositores” tímidos ou desconcertados. Não tinha grande porte físico, sua altura não chegava a ter um metro e sessenta, porém quanto encarava alguém parecia uma mulher de um metro e oitenta de altura por sua postura brava.
Joana já se tornara conhecida naquela região chamada de local de “mulher da vida fácil”, tanto pelos seus clientes quanto pela polícia por seu temperamento, digamos, um pouco arretado, quem a conhecia sabia que ela não era de levar desaforo para casa.

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Aquela noite estava bastante calma apesar de ser uma sexta feira, geralmente muito agitada, poderíamos dizer ser uma exceção.
De repente houve um princípio de confusão e gritos em meio à noite escura. Não demorou muito para a polícia aparecer, visto ser uma região bastante vigiada tanto pela incidência de brigas corriqueiras, quanto pelo olhar preconceituoso do Estado em relação aos grupos marginalizados daquela redondeza.
O giroflex da polícia dava um ar ainda mais sinistro àquele lugar e o barulho havia cessado. As moças espantadas apareciam sem entender o que havia acontecido enquanto os policiais faziam a abordagem de forma habitual e truculenta ao revistar os transeuntes.
- De quem era aquele grito? Perguntava um policial mais exaltado enquanto procurava qualquer tipo de arma pela cintura do homem o qual estava sendo abordado.
- Eu não sei de nada! Respondeu o homem com a voz “embaçada” de medo.
- Vamos, vamos! Gritou o policial superior, sargento que comandava a operação.

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De um beco bastante escuro aparecia uma mulher de vestido vermelho ao estilo de um fantasma.
Com a lanterna em punho em uma mão e arma na outra o mesmo policial que estava mais exaltado aponta para o beco de onde ver sair Joana com uma faca na mão, uma parte brilhando o aço e a outra com sangue escorrendo.
- Parada aí ou eu atiro! Gritou o policial. A moça não deu ouvidos e veio andando devagar ao encontro dos policiais, porém levantou as mãos e logo deixou a lâmina cair fazendo barulho na calçada da rua.
- Fui eu quem matou, fui eu quem matou! Aos gritos falava a moça.
Os policiais se aproximaram e sem esforço algemaram Joana, a qual não esboçou nenhuma reação a não ser cair no choro.

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Na delegacia começaram as primeiras interrogações, porém Joana permanecia calada e assustada.
O delegado de plantão o avisou que tinha direito a um advogado que poderia ser um defensor público ou mesmo um particular caso ela tivesse condições de pagar.
Joana tentou balbuciar alguma coisa, no entanto, sua voz não saía, estava completamente muda.
A manhã chegou e nada dela falar algo, apenas chorava muitas vezes de forma incontida. Uma psicóloga fora destinada a cuidar do seu caso, tentou uma conversa preliminar, tudo em vão. Pelo jeito a menina realmente havia perdido a fala, isso poderia ter se dado pelo fato dela ter sofrido um trauma muito forte.

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Enquanto isso a polícia fazia diligência pela manhã em busca de um corpo, todavia, nada fora encontrado, nem mesmo marcas de sangue no beco o qual Joana apareceu com aquela faca na mão. Aliás, era o único fator pelo qual se poderia atribuir a um crime, além das últimas palavras da suposta assassina dizendo: - “Fui eu quem matou, fui eu quem matou”!

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O tempo foi passando e a cada dia Joana se tornava mais tímida dentro da cadeia, literalmente sem palavras. Nem de longe se parecia com aquela moça forte e intimidadora de outrora. Os procedimentos legais do seu processo foram andando e no final mesmo sem ter um corpo ela fora condenada a cumprir cinco anos em regime fechado na prisão.
Como não tinha condições de pagar um advogado ela foi representada por um defensor que não deu a menor atenção ao seu caso e ela foi trancafiada ali por cinco anos.

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A Psicóloga que atendera pela primeira vez de nome Jaqueline pediu para acompanhar o caso e ficou tentando encontrar o motivo pelo qual ela perdera a voz, porém sem a ajuda da mesma não conseguia entender ou identificar aquele trauma e Joana só sucumbia a cada dia, totalmente calada.

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Passaram-se quatro anos e a psicóloga já estava animada, pois a cada dia se aproximava mais a soltura da moça, no entanto, aquele mistério passou a perturbar a cada vez mais a profissional de psicologia.
Acreditava muito na inocência da agora ex-menina de programa, todavia não podia provar.

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Como habitualmente fazia nas consultas chegou no horário marcado e foi direto ao local de encontro fora da cela. Com um sorriso no rosto Joana o encarou com um olhar complacente de menina que acabou de ganhar uma boneca de presente.
Mesmo sabendo que não teria resposta a psicóloga perguntou:
- O que aconteceu, Joana?
- Nada, doutora!
Os olhos de Jaqueline arregalaram de susto mesmo sabendo ser possível alguém voltar a falar quando se perdera a fala por um trauma.

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- Podemos conversar Joana?
- Lógico! Respondeu.
- Conte-me, o que aconteceu naquela noite?
Joana baixou a cabeça e as lágrimas jorraram com força de forma incontida novamente.
- Calma, não precisa responder agora se não se achar pronta!
- Desculpa, doutora, preciso falar sim, vou só me recompor.
Jaqueline permaneceu calada aguardando o momento da confissão daquele mistério, porém não estava se segurando de tanta curiosidade, mesmo assim mantinha o seu profissionalismo de psicóloga bem sucedida e ética.

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Depois de algum tempo a moça então disse estar pronta para começar a falar sobre aquele mistério.
- Em primeiro lugar gostaria muito que essa conversa permanecesse em sigilo, doutora, essa será a principal condição para que eu fale.
- Fique tranquila, Joana, estou a quatro anos tentando entender tudo isso e vou manter em sigilo a nossa conversa, mas você sabe que precisamos relatar a justiça, não é?
- Sim, porém nada vai acrescentar visto que a minha pena logo vai vencer e eu estarei em liberdade.

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- Em primeiro lugar tenho que me colocar como ré realmente, eu matei aquele desgraçado, vinha há muito tempo esperando o momento para essa oportunidade, não me arrependo de nada do que fiz.
- Quem? Perguntou a psicóloga?
- O infeliz que conheci ainda quando criança, o qual matou a minha jovem mãe.
- Fale mais sobre isso!
- Então, doutora! Posso te chamar de Jaqueline apenas?
- Fique a vontade, Joana!
- Era uma noite chuvosa, eu era a única filha da minha mãe, meu pai morrera em um acidente de trabalho quando eu tinha apenas dois anos de idade e ela sozinha passou a ter muitas dificuldades na vida para me criar, foi quando ela conheceu esse maldito namorado que trouxe a nossa ruína.
- De início foi um amor, mostrava ser um padrasto amoroso, cuidava de nós duas, porém à medida que fui crescendo ele passou a me olhar de forma diferente e quando eu completei sete anos de idade começaram os primeiros abusos. Eu chorava e dizia que falaria a minha mãe e ele respondia que mataria a mim e a ela. Para falar a verdade eu não temia mais por mim e sim por ela e foi assim que aquela violência se estendeu por mais um ano quando certo dia minha mão nos encontrou naquela terrível cena. Ela partiu para cima dele, mas como o infeliz andava armado puxou de um revólver e atirou no peito de mamãe matando-a ali mesmo. Naquele desespero eu corri e ganhei o mundo, passei a viver na rua, entretanto, sempre com essa ânsia de vingança, visto que ele nunca fora encontrado para pagar pelos erros cometidos. Fui criada na rua sofrendo todos os tipos de violência que se possa imaginar, aos quinze anos conheci um rapaz que me deu um lugar para morar e eu quase me restabeleci.
- Aos 20 anos eu soube que aquele animal que roubara a minha infância era cafetão e estava trabalhando naquela zona de prostíbulo. Fugi da casa do meu namorado e comecei a trabalhar como prostituta. Ele era clandestino na área, por isso nem mesmo a polícia tinha conhecimento de sua existência, até porque pouco aparecia ali, apenas para cobrar o dinheiro das prostitutas no meio da noite na escuridão.
Havia passado tanto tempo e ele nem imaginava quem era eu.
- Foi fácil arrumar todo o “terreno”. Ali naquele beco tem um esgoto com uma tampa, percebi que há muito tempo estava sem serventia, então ao esfaqueá-lo empurrei esgoto adentro e fechei novamente a tampa, assim seu corpo nunca fora encontrado, apenas a faca com sangue.
- Durante esse tempo preferi fingir-me de muda, assim seria melhor, não estava preparada para contar a verdade, hoje me sinto realizada e sou uma mulher sem medo. Em breve sairei e quem sabe reconstruirei a minha vida.
- Será que ainda dá tempo, Jaqueline?

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Eram 20 anos de profissão ouvindo confissões de todos os tipos e Histórias de crueldade enorme nunca tinha sido tão tocada, mas aquele relato tomou Jaqueline de emoção e as lágrimas não demoraram a cair, pela primeira vez em sua carreira foi ao encontro de um cliente seu para afagar em um abraço. Era a primeira vez que chorava em frente a um analisando.
- Joana, toda vida pode ser reconstruída sim! Lógico que não sem cicatrizes e traumas, porém sempre há espaço para mudanças.
Depois de alguns minutos elas se despediram, Jaqueline fora para a sua casa e Joana para a cela.
 
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Era tarde de quarta feira já quase noite. Deitada em sua cama ela olhava por uma pequena fresta da cela o brilho do sol já se pondo lá fora com um tom de liberdade, sua pena estava se cumprindo, naquela manhã de quinta feira enfim estaria livre, e sua alma estava flutuante e radiante de alegria.
Era ela, era ela, a liberdade se aproximava e sorria para Joana como se quisesse dar um abraço apertado e a moça com um sorriso estampado no rosto retribuía, assim adormeceu pela ultima vez naquela cama fria de presídio.
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FIM
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Joel Marinho
Enviado por Joel Marinho em 21/08/2020
Alterado em 21/08/2020


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